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Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

A sociedade vs redes sociais

Actualmente, a sociedade (todos nós: jovens e graúdos), motivada por pecados escondidos, defeitos físicos, oportunismos, dificuldades em socializar ou até por carências afectivas (dos pais e ou de amigos), usamos as redes sociais para nos sentirmos vivos; mesmo que esse sentimento esteja contaminado de incertezas, mentiras e sonhos recalcados por anos de incompreensão.

A vida virtual é sempre melhor que vida nenhuma; um e-mail ou uma conversa escrita no Twitter, no MSN ou noutro qualquer programa informático vocacionado para o convívio à distância, mesmo que seja conspurcado de inverdades e até de armadilhas, é sempre um bálsamo apaziguador para mentes recheadas de dúvidas e contaminadas de incertezas sobre as questões da vida e dum futuro que não perspectiva nada de risonho.

Os desconhecidos: esses fisicamente longínquos personagens mas, tão perto e disponíveis a qualquer hora do dia (e da noite), já substituíram a família sem que esta se aperceba que as poucas (quase nenhumas) horas em que há um contacto visual, este só serve para um cumprimento frugal (beijo fugidio) de até logo e nunca para o diálogo interessado e necessário sobre o dia-a-dia: a dúvida, a incerteza, a perspectivas de futuro, os sonhos, os projectos e as recaídas sistemáticas por falta de apoio presencial de alguém que nos ama mas não nos compreende (pensam eles, jovens de hoje). O conflito de gerações será assim tão real (e desprezível) que faça com que os nossos jovens o levem à letra sem se questionarem que poderá haver mais perdas que ganhos? Não serão os pais os mais interessados em que os seus imberbes descendentes tenham um trajecto de crescimento cultural e social saudáveis? Penso que sim mas há sempre excepções que mancham atrozmente o que deveria ser uma relação aberta, franca e direccionada para o bem-estar presente e futuro da família no seu todo; refiro-me ao recente caso em que uma adolescente é brutalmente agredida por colegas (ex amigas): a mãe só apresenta queixa judicial depois de todo este caso ser do domínio público mas, o que mais a ofende é ser referida como sendo “prostituta” e não “triper”; a PGD afirma não ter técnicos apetrechados com saber informático para lidar com casos semelhantes, pergunto se as polícias (PJ, GNR e PSP) não estarão disponíveis para saldar esta pecha? A sabedoria popular diria “a desculpa é mau pagador”. Se o “paspalho” que colocou este caso na Net tivesse antes um vislumbre de lucidez intelectual poderia ter evitado uma agressão violenta e anti-natura (ou talvez não para alguns/muitos) e nunca incentivando os interlocutores na continuidade das agressões mas, o suposto realizador não se coibiu de filmar e posteriormente colocar a gravação no “mundo virtual” no intuito de receber posteriormente aplausos e visionamentos em números de muitos dígitos, elevando o seu ego ao cume da popularidade internauta:

- Sou o maior!!!
Tudo serve para exibirmos cínica e narcisistamente as nossas acções; o mundo está ávido de conhecer o mundo real através do “mundo do faz de conta” onde a verdade perde todo o sentido e a imaginação não tem limites tornando difícil percebermos onde está a verdadeira transparência de atitudes. Os amigos -supostamente- reais são adversários gananciosos que se alimentam das nossas fraquezas e deslumbramentos dum determinado momento (fotos e vídeos comprometedores com ex namorados). A devassa da privacidade é tão real e efectiva que não surpreende a ninguém a sua publicitação em praça pública (global), nem àqueles que são “queimados” por tal vilania e intromissão na sua vida pessoal.

O réu será sempre inocente até passar em julgado (condenado em audiência) mas, a opinião pública já antecipadamente fez o seu julgamento porque o segredo de justiça está sempre em igualdade proporcionalidade com a honestidade dos funcionários judiciais: juízes, MP, secretários e todos os outros que não devendo, têm acesso aos processos!
Os sentir os cheiros, o palpitar das emoções, o ver olhos nos olhos o que caminha lá no fundo de nós mesmos, no nosso interior mais íntimo, estão ausentes e vedados quando o relacionamento civilizacional é consumado entre as redes sociais. A rouquidão, a transpiração e o tremer natural do momento, só são sentidas quando inalamos o aroma natural dos pensamentos e acções de quem connosco verdadeiramente convive e nunca num qualquer visionamento mais ou menos ficcionado por uma Webcam.

Segunda-feira, 21 de Março de 2011

Ser ou não ser…
O português como um todo: sociedade cultural com uma história rica – grandiosidade de homens e mulheres de façanhas escritas para a posteridade – tem no seu âmago uma semente única – Lusitanidade - que enraizou e produziu frutos que são no mínimo semelhantes no aspecto, já que o sabor é sem margem para dúvidas, do gosto das papilas daqueles que o saboreiam?
O ditado popular “Maria vai com as outras” define estados de alma ou está na génese do DNA do Lusitano?
Porque que assiduamente se afirma com total convicção um determinado ponto de vista sobre uma qualquer questão e posteriormente numa outra ocasião, essa mesma querela é analisada por outros parâmetros e se conjecturam soluções diametralmente opostas? Tudo depende dos fins já que os princípios: tornámo-los voláteis e facilmente manuseáveis.
Porque pretendemos ser iguais aos outros (europeus) se o nosso estado intelectual é dos mais baixos do mundo ocidental;
“Vale mais parecê-lo que sê-lo”, define o português citadino de hoje: carteiras recheadas de cartões de plástico mas, com dívidas e penhoras; férias nos locais mais exóticos do globo mas, a troco do pagamento de juros altos pelo empréstimo ao consumo que come a maior parte do ordenado; gosta de ir ao restaurante e ao café mas, durante a semana come uma sopa e bebe um copo de água; carro de gama alta mas, só passeia aos domingos (passeio dos tristes) e quando vai à terra natal; Vestir as marcas estrangeiras contrafeitas compradas nas feiras; …
Quanto gasta cada português na cultura: livros, teatro, exposições, feiras temáticas, museus e outras iniciativas culturais? Resposta: a cultura está muito cara para quem ganha tão pouco! «Prefiro gastar na imagem: é tão bom parecê-lo quando não posso sê-lo»
Todas estas considerações vêm a propósito dos últimos acontecimentos políticos tais como a recente eleição presidencial e a manifestação dos “jovens à rasca”e outras como o concurso da canção para a Europa.
Tanto se elege um conservador empertigado e empedernido que nunca se engana e raramente tem dúvidas como se vota numa canção dita de intervenção (bons anos 70 do século passado) que de “festivaleira” nada tem e está completamente desenquadrada do espírito do concurso musical em questão.
Faz-se uma manifestação dos “jovens enrascados” (e não só) mas, aparecem nas redes sociais imagens e fotos desta, vindas de aparelhos de última geração cujos preços suplantam (e muito) os 400€. Os pais pagam a inércia e a pasmaceira duma juventude que foi (estupidamente) educada dentro de padrões de riqueza muito acima das reais posses da família e que dão por adquirido tudo aquilo que possuem como sendo a normalidade da sua “miserável” vivência.
Ter iniciativa gasta os “neurónios” encharcados no fim-de-semana passado com os amigos nos bares do costume e o cansaço intelectual prende o corpo à caminha.
Porque será que os médicos fazem um maior número de intervenções cirúrgicas fora do seu horário normal de trabalho?
Porque temos de pagar (para além do seu vencimento) aos professores para corrigirem os testes de exame?
Porque teremos de pagar às Juntas de Freguesia por estas ajudarem, os ainda muito analfabetos e excluídos socialmente, a preencher a declaração de IRS via internet?
Porque será que os deputados não pretendem reduzir o seu número na assembleia da República de modo a podermos poupar milhões de euros todos os anos? Hipocrisia!
Porque só pagamos impostos quando é humanamente (e não legalmente) impossível não o fazer? A saúde, a educação, a justiça, a nossa segurança não são exigências constitucionais ao dispor de todos?
Porque somos um povo de contradições quando rastejamos na imundice da miséria para irmos ao futebol e depois afirmamos: - o livro é proibitivo por ser tão caro? No café a nossa intelectualidade minimalista – adquirida através da leitura dos jornais grátis deixados no banco do transporte público ou dos concursos televisivos – é levada ao ponto de nos auto-proclamarmos: Doutores Honores Causa. Os vapores etílicos criam uma auréola enciclopédica que até nós ficamos extasiados de tanto saber vaporizado que transborda e esmaga os incrédulos vizinhos da mesa ao lado.
Ser ou não ser: é uma venha e renhida questão que as massas tendem a menosprezar pelo seu todo mas, aceitam o primeiro ser como sendo - o parecer - e rejeitam o outro ser por este sim, ser aquele que verdadeiramente somos, sem subterfúgios e transparente na demonstração de sermos o que efectivamente não podemos ser.
O que somos afinal, o que queremos e para onde pretendemos ir?
Estamos despidos de objectivos dinamizadores da sociedade portuguesa; cada um por si e não todos por um. O futuro geracional está posto em causa por pessoas e ideias miserabilistas de ocasião.
Toda a revolução é passageira e esbate-se na necessidade do tempo de mudança pois. O ser humano é insaciável no querer para si o melhor que a sociedade e a “Mãe Natureza” produzem de melhor.

Sábado, 18 de Dezembro de 2010

Direito inquestionável à informação


O australiano Julian Assange ao criar o Wikileaks trouxe para a ordem das conversas (em cafés…em casa…nos transportes públicos e em praticamente todo o lado…), os bastidores da política diplomática que tem muito de astúcia, como é verificável mas, nada tem de polidez.
 
Todos nós tínhamos a ideia – por mais pequena que ela fosse – de que a diplomacia mundial era somente um jogo de enganos (quais amantes amados nos hotéis e odiados em casa) e onde a hipocrisia era “vomitada” à volta das mesas redondas (coitado do Rei Artur…) e aparentemente aceite pacificamente por todos até ao momento em que as linhas telefónicas eram usadas para aí sim, derreter tudo o que a alma conteve por imperativos políticos, económicos ou porque simplesmente apetece ser do contra – por tradição ou por birra - (que na política também a há; deve ser um defeito de criança que queremos que perdure enquanto houver benefícios que possamos retirar dela).
Nada disto nos é estranho – ou não gostássemos todos nós de visionar filmes policiais – mas, o que pode ferir as nossas sensibilidades humanas terá mais a ver com a facilidade com que (na política) se fazem amigos (direi: aliados de ocasião), e que, com grande destreza se trocam por outros. Depois lamentamo-nos que determinada sociedade cultural aja utilizando normas nossas: informação, saber e tecnologia contra as nossas famílias e os nossos interesses estratégicos. Esquecemo-nos facilmente de aplicar sentimentos como: respeito, lealdade, honra e amizade; tudo é susceptível de usar e descartar conforme as nossas necessidades do momento.
A satisfação que retiro de toda esta salada de informação confidencial (que deixou de o ser), é a certeza de que os diplomatas com o seu ar frio e impenetráveis a insinuações jornalísticas, são seres humanos normalíssimos em que as verdades sentidas – em privado - saem em catadupas do seu pensamento e são transcritas em sons e palavras que depois de ouvidas (e ou lidas) deixam o seu locutor mais leve e feliz consigo próprio: - Tirei mais um peso da minha consciência -.
Vivemos em tempos onde a informação é tida como um direito inquestionável de todo o cidadão contribuinte e votante; questionamos aqueles que nos a querem sonegar mas, não a utilizamos como arma de arremesso – votamos sempre nos mesmos -; queremos notícias mas, não filtramos as mesmas e assimilamos tudo o que os pivôs televisivos nos impigem; a mentira é facilmente tornada verdadeira sem que nos apercebamos da sua rápida transformação. A nossa passividade vem do facto de pensarmos que somos inteligentes… que somos culturalmente evoluídos… que temos facilmente acesso ao consumo e que somos belos, sim belos e formosos e assim sendo, as portas da vida (mundana) abrir-se-ão para nós e não haverá quaisquer enganos que o nosso orgulho não possa suportar!
A realidade não é mais que um filme a preto e branco onde pessoas desconhecidas (nem queremos saber quem…) se escondem e se matam motivadas pelo capricho de um “líder” (votado em urnas democráticas).
À Carta Internacional dos direitos do homem deve acrescentar-se um novo Artigo: Art.º 31º - Direito à informação sem qualquer espécie de censura.

Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

O Muro

A “Minha Terra” não tem um café, não possui um centro comercial; na “Minha Terra” não nasceu nenhum vulto das artes que são sempre lembrados pelos outros – os de fora – e nunca pelos da casa; na “Minha Terra” não há políticas mas, há politiquices enraizadas até à medula que faz com que as zangas sejam circunstanciais e nunca objectivas.

A “Minha Terra” é cortada sem dó nem piedade por uma estrada nacional que não se compadece das pessoas (sem passeios; sem segurança) e dá sempre a primazia ao automóvel – esse cavalo dos tempos de hoje -; na “Minha Terra” não existem luxos, embora os filhos que emigraram tentem pavonear-se com vestimentas compradas nos “Grand Magasin”.

A “Minha Terra” é pequena no tamanho mas, tem a grandeza da linguagem e dos sentimentos das suas gentes que quando necessário, demonstra piedade nos momentos de dor e noutros, exala invejas desmesuradas que ninguém sabe as suas origens mas, permanecendo diluídas no interior das largas e velhas paredes de granito, pacientemente esperam o momento de serem arremessadas contra o vizinho por questões que não lembra ao próprio diabo.

Na “Minha Terra” lavra-se a terra para gastar o tempo e já não para abastecer a despensa que iria alimentar a família durante todo o ano; as prateleiras do super-mercado estão cheias de produtos estrangeiros à espera da mísera reforma.

O povo da “Minha Terra” é idoso, sábio pela idade; não nascem crianças na “Minha Terra”. A escola primária fechou há tanto tempo que já não me lembro quando; hoje, as suas paredes foram felizmente ocupadas pela Associação Cultural, Recreativa e Desportiva “Alegre Atitude” criando um novo pólo de interesse cultural onde as pessoas (não todas…) ao sabor duma bebida embalada por música “pimba”, jogam às cartas, dançam cantares de outros tempos e socializam transmitindo as suas vivências nos intervalos das novelas e dos jogos de futebol.

A “Minha Terra” é pobre, as suas gentes têm momentos de mediocridade latente mas, tem o que muitas outras não terão: um muro. Não é um muro qualquer que serve simplesmente de divisória ou de sustentação; é um muro onde se sentam as calças compradas no litoral ou em Paris e juntamente com as outras calças da lavoura ou dos trabalhadores da junta (actual Estradas de Portugal) em harmonia sincronizada, se roçam com prazer na sua superfície granítica.

Assim que se chega, é o local onde se fazem os primeiros cumprimentos: abraços, beijos e gestos mais ou menos efusivos acontecem e oferecem-se naturalmente. As notícias são debatidas não no conforto do sofá (já os há) mas, sentados no muro. As reuniões pós missa são no muro; as digestões das grandes refeições são feitas no muro; histórias e projectos são explanados junto ao muro. O muro aceita todos os escalões etários e ambos os géneros; é um muro democratizado pela necessidade de todos conviverem sem quaisquer clausuras culturais. É um muro de lamentações mas, também o local único por excelência para exteriorizar alegrias, sonhos e vangloriar-se de façanhas cometidas em terras de outros.

- Vou até ao muro.

- Está de certeza sentado (a) no muro.

São frases do quotidiano das pessoas da “Minha Terra” que centralizam no muro as suas necessidades de simplesmente conversar e todos nós sabemos que é pela fala que se faz a transmissão entre as sabedorias vindas de quem nos botou ao mundo e as gerações seguintes.

Mesmo hoje com a existência salutar e dinâmica da Associação “Alegre Atitude”, é no muro que se retiram os momentos espiritualmente mais singelos.